Parabéns César Lélis

Prémio de Mérito Teatral 2009 será atribuido ao actor César Lélis

Prémio de Mérito Teatral 2009 será atribuído ao actor César Lélis

 

Eis três condições essenciais para a emergência da arte:

 

  • Espontaneidade – a arte deve inevitavelmente evoluir de dentro para fora (assumindo metaforicamente que exista tal distinção). Não se pode impor divindade aos gestos. Por mais estudada e apurada for a técnica, a beleza surge da naturalidade do gesto. O aperfeiçoamento da técnica é necessária, mas a arte emerge quando a técnica incorpora-se e é esquecida. Surge assim a espontaneidade e a beleza. O estilo de representação de César Lélis é a própria encarnação da espontaneidade. Dispensa toda espécie de artificialidade e sofisticação, limita-se a ser ele próprio e… resulta.

 

  • Criatividade – a originalidade inventiva relaciona-se directamente com a espontaneidade, o afrouxamento daquilo que venha a ser a “realidade factual” e a abertura a expressão interior. A criatividade não surge de um esforço deliberado no sentido da originalidade da mensagem mas da expressão daquilo que naturalmente surge no seio e para além daquilo que percebemos e sentimos, sem concessões relativamente ao consensual. A originalidade inventiva de César Lélis não surge da necessidade de inovar, pelo contrário, o essencial não varia. Mas resulta sempre novo, porque ela é a própria expressão natural de se ser fluxo.

 

  • Comunicabilidade – a distinção entre aquilo que convencionalmente denominamos arte e aquilo que vem a ser loucura ou devaneio, não reside fundamentalmente na natureza daquilo que se exprime, mas na própria expressibilidade do que se exprime. César Lélis comunica profundamente, toca o âmago da nossa hilaridade, fá-lo naturalmente. É necessário distinguir o que venha a ser “populista” (compreendida aqui no sentido depreciativo) do que é a comunicabilidade. A comunicabilidade, contrariamente ao “populista”, relaciona-se ao contacto íntimo do artista com o público.  César Lélis é o actor cabo-verdiano mais popular em Cabo Verde, não pela tendência ao populismo, mas porque consegue como poucos um tal contacto com o seu público.    

 

Parabéns César Lélis pela espontaneidade, pela criatividade e pela comunicabilidade. É o primeiro actor a receber o prémio de mérito teatral do Mindelact e merece-o, não apenas pelos trinta anos de carreira, não apenas por ser a alma dos Juventude em Marcha, não apenas pela popularidade, mas fundamentalmente pelo artista que é, e esperemos, continue a ser por muitos anos.       

 

 

    Caplan Neves

Anúncios

Um Olhar Sobre “O gato malhado e andorinha sinhá: uma história de amor”

gato_malhado_01

É no modo como olhamos, e na distância em que nos situamos em relação à diversidade e à diferença, que reside o “exótico” ou o “bárbaro”. O traço comum entre estes dois termos é a pressuposição de distância em relação à aquilo que pretendem designar. Trata-se pois de idealização do diverso, do diferente. Enaltecimento do desconhecido, ou aversão no desconhecimento. Idealização compreende sempre distância. A idealização daquilo que está próximo é inconcebível, porque as informações que nos chegam do objecto real exigem constante acomodação do conteúdo idealizado.

 

Proximidade e diversidade talvez sejam das questões mais essenciais e mais difíceis das relações interpessoais. A diversidade diminui com a proximidade. Quanto mais longe estamos do outro, mais é a tendência a polarização (eu/tu nós/eles), ao absolutismo da diferença e a idealização do diverso (positiva ou negativa). Quando nos aproximamos do diverso, encontramos a similitude. Percebemos como aquilo que nos parece tão profundamente nosso pode encontrar eco no outro. E mais, que a diferença reforça a proximidade no sentido em que ela se esmorece com a complementaridade.  

 

No fundo trata-se de saber se a diversidade e a diferença residem na proximidade ou na distância. Se a proximidade ou a distância reforçam ou atenuam o sentido do diferente, do diverso. Aproximar-se do outro, contempla-lo na sua totalidade, encará-la como uma realidade, e não como objecto abstracto da nossa percepção do mundo, é penetrar na essência do diverso. É na diversidade e na diferença que reside a consciência última do outro como realidade autónoma e não como um objecto em nosso mundo. Portanto, o reconhecimento da diferença e da diversidade coloca-nos em contacto com a similitude, pelo reconhecimento do outro como entidade alheia a nós e, como nós, cerne de um ser e de uma consciência do mundo própria e particular.

 

São estas questões que se põem quando se vê a aproximação de dois seres tão diversos, tão diferentes, movendo-se em contextos tão distintos como o céu e a terra, chegando a ser inimigos naturais: um gato malhado e uma andorinha sinhá.

 

Nenhum presente é mais enriquecedor do que aqueles que nos convidam a descoberta, a reflexão e a resignificação do mundo. Foi este o presente que nos doou a companhia teatral do Centro Cultural Português com a apresentação da peça O gato malhado e a andorinha sinhá: uma história de amor”. O espectador é convidado à encontrar um mundo encantado onde o vento conta à manhã uma linda história de amor, que esta conta ao tempo para ganhar uma linda rosa azul.

 

Ainda que tenha um triste final, é uma peça essencialmente alegre e bem-humorada, com uma interessante montagem, música original, singela mas criativa concepção de mascaras e agradáveis efeitos de som e luz. A peça é indubitavelmente uma óptima sugestão para pequenos e crescidos que queiram passar um bom momento e aproveitar para pensar num amanhã mais aberto a aceitação e exaltação da diversidade e das diferenças.

 

O que criticamente se pode apontar à peça, é ter-se terminado demasiado depressa. “Demasiado depressa” no sentido em que transmite à plateia, a sensação e a angustiante esperança (aliás desesperançada) de que aquilo não deveria terminar assim. Neste sentido pode-se apontar que o final acaba por ser demasiado seco. Uma secura que ao contrario do que se pretendia na peça, transmite uma sensação de determinismo, de fatalidade do destino, de conformismo. Neste sentido, talvez se perdeu um pouco a essência do fantástico conto em que se baseia. Era desejável que se prolongasse a dor da separação. A dor de se viver preso a recordações quando o acesso ao futuro parece vedado. Era importante que o gato malhado procurasse a cascavel e que a andorinha sinhá o visse do alto e lhe adivinhasse e reconhecesse em si a dor que o habitava. Era importante a identificação na dor. Era importante que esses dois seres tão distintos deixassem a plateia experimentar um pouco mais essa dor que partilhavam em conjunto. Era importante que a plateia partilhasse com eles um pouco mais essa dor, para depois poderem dizer como disse Jorge Amado, que “o mundo só vai prestar/ para nele se viver/ no dia em que a gente ver/ um gato maltês casar/ com uma alegre andorinha/ saindo os dois a voar/ o noivo e noivinha/ Dom Gato e Dona Andorinha”.

 

 

Caplan Neves

 

 

Máscaras

mc3a1scaras09 

“Máscaras” retrata a história de dois homens apaixonados pela mesma mulher. Algo que em tempos podia suscitar algum espanto, estranheza ou mesmo uma certa polémica, mas que se trata de algo bastante comum nos nossos dias e no nosso quotidiano e que pode acontecer a qualquer um de nós “comuns mortais”. O que leva a uma certa identificação do espectador ao tema tratado.

Por um lado, um «arlequim» ousado, atrevido, com um discurso bastante convincente e atraente e, que não tem medo de “roubar” um beijo à amada. Aquele «arlequim» que toda a mulher deseja ardentemente mas que não dá sossego ao coração, como o faz o «pierrot» triste, romântico e menos ousado e atrevido.

Aquele «pierrot» que toda a mulher sonha mas que sossega por demais os nossos corações, deixando espaço e abertura para os «arlequins» da vida.

Por outro lado ainda, uma mulher bonita, de contornos atraentes, de gestos suaves e voz doce. Contudo, indecisa e dividida entre os dois grandes amores da sua vida, «entre um beijo de arlequim e um sonho de pierrot».

No decorrer da peça momentos de música e dança vão demonstrando os sentimentos que se quer exaltar.

No final uma mistura de sentimentos, “sussuros”, desejos, falas e entregas por parte dos actores, ao mesmo tempo que se comunicam com a plateia transmitindo uma vibração bastante positiva.

A boa organização da peça ficou sentida em todo o empenho e dedicação por parte de todos os participantes, seja dos actores, dos dançarinos, responsáveis pela encenação, coreografia, iluminação, cenário, figurinos, etc.

O tema foi abordado de forma suave e conseguindo captar a atenção do espectador comum, mesmo tendo em cima a responsabilidade da interpretação de um texto poético. A forma directa e breve com que o decorrer das “cenas” foram organizadas também facilitou neste aspecto.

De destacar ainda o uso de algumas expressões do quotidiano, expressões comuns de forma a provocar o riso e momentos de descontracção quebrando a monotonia que o discurso poético pode as vezes criar. Nunca um “Chiça” teve melhor momento. Ou mesmo a expressão da música do rapper Boss Ac: “Baza, baza…”

Em suma, a criatividade e originalidade na forma de tratamento do tema e a pertinência e familiaridade do mesmo, são aspectos a serem destacados.

A “junção” final teve resultados bastante positivos, pelas cores e mistura de tons, a música e o ambiente criado, o espaço usado e sentimentos exaltados e captados.

Tendo em conta a primeira apresentação da peça no último “Mindelact” pode-se afirmar que a mesma passou da formação do “embrião” ou do “feto” (passa-se a citar o actor João Branco) para o nascimento de uma criança que se for bem socializada não deixará ficar mal os demais frutos desta companhia de teatro que tão bem tem dignificado o nome do teatro cabo-verdiano. De fazer referência ainda, a colaboração da “Companhia de Raiz di Pilon” que também muito tem contribuído para o enriquecimento da cultura cabo-verdiana.

 

 

Patrícia Monteiro

 

 

Um Olhar Sobre “Máscaras”

mascaras-web-10

Duas criaturas aglutinadas que se movem sobe o fundo negro. Sobre eles a túnica do amor, o liame que os faz um com o objecto amado e revela o sentido da existência, o “ponteiro do relógio que dá significado ao tempo”. Dois corpos que se movem vazias até que encontram o amor (os dançarinos aglutinados) que lhes conduzem ao fluxo da vida (as oscilações do baloiço). Então o arquétipo do amor se manifesta em duas faces distintas:

– Uma face libidinosa e lasciva, um possante sim ao desejo, uma entrega lúbrica à vida; e uma face romântica, arrebatada pelo sonho, que vê na face do objecto amado a transcendência do ser, uma porta aberta à um paraíso que sobrepuja os limites do ser patente.

Duas faces da mesma moeda. Um arlequim risonho que transporta entre os lábios o sabor de um beijo, um rosto tristonho que carrega no peito a supereminência de um olhar. O sonho e o desejo dançam entre si, tal como os dançarinos aglutinados, tão distintos e tão articulados, reflectindo a homogeneidade da diferença, a divergência que se desvanece na complementaridade.

Então, como no próprio amor, a hilaridade do arlequim, com a sua lábia lasciva, as suas investidas pelo crioulo e suas incisas (“basa basa / vai pra casa casa / que isto aqui não é um filme boi”) convive com a melancolia, a tristeza e o abatimento do pierrot, o dedo na ferida aberta do amor.

Na plateia o espectador é precipitado nessa torrente extasiante, entre o desejo e o sonho, o riso e o pranto. Na sua mão segura um rebuçado que aperta entre os dedos, dividido entre o desejo lascivo de trinca-lo e a espera sonhadora de um momento.

O auge da peça anuncia o derradeiro desfecho. É o caos: as vozes divergentes na sentença e no tom, corpos que se movem quebrando os limites entre a plateia e o espaço cénico, a movimentação acentuada dos dançarinos aglutinados, a musica harmónica que fluí, o estupefacção dos espectadores… o caos que reflecte a energia poderosa que é o amor. Porque o amor também se escreve assim: o olhar de um pierrot e o beijo de um arlequim.

 

Caplan Neves