Um Olhar Sobre “Shakespeare Behind Bars”

mv5bmtg0ntqxmjc5mf5bml5banbnxkftztcwndc4nzizmq__v1__sx97_sy140_1 

 

Anuindo com Aristóteles que o tempo não é um conjunto de instantes, pode-se contrapor que certos instantes definem o significado do tempo. Certos instantes sobrepujam o significado mensurável do tempo. As pessoas mudam e, muitas vezes, as mudanças significativas não ocorrem como processo num fluxo temporal, mas como metamorfoses intempestivas.    

 

Toda a mudança significativa ocorre por intermédio de experiências emocionais significativas.  A mais significativa das experiências, a mais dolorosa, a mais enriquecedora, a mais promotora de crescimento é o re/encontro do homem consigo mesmo. O filme “Shakespeare Behind Bars” é um documentário que testemunha de forma tocante e sensível um encontro dessa natureza.

 

São “assassinos”, “violadores”, “criminosos”, que encontram Shakespeare através das grades de uma prisão de alta segurança. São homens que trazem traumas e histórias, das quais estão intelectualmente conscientes mas cujas associações emocionais reprimiram violentamente. Representar Shakespeare é para esses homens, morder violentamente suas feridas abertas. Saborear a humanidade em sua carne e pela primeira vez sentirem-se abertos a experimentar verdadeiramente a humanidade no outro.   

 

Pode-se falar de afectos, de amor, de perdão, pode-se falar do outro e de nós próprios, pode-se estar familiarizado com todas as palavras que exprimem o sentido da vida, sem que este sentido se revele. Todos reconhecemos essas palavras, mas não passam de “coisas mortas”, quando o conceito subjacente não existe interiormente. A pessoa que fala de amor sem amar limita-se a brincar com os sons da palavra. Limita-se a passagem do ar pelo aparelho fonador que ressoa pelas vibrações simpáticas nas cavidades da sua cabeça. 

 

Como disse Vygotsky “as formas mais elevadas do intercâmbio humano só são possíveis porque o pensamento do homem, reflecte a actualidade conceitualizada. O significado das palavras é simultaneamente unidade do pensamento generalizante e do intercâmbio social. O outro compreende quando lhe dizemos “amo-te” porque reconhece em si o amor que também ele sente. Não é explicável, mas compreensível.

 

O símbolo linguístico (a-m-o-r) não transmite uma realidade interior mas permite uma manifestação tácita dessa realidade que chega ao outro, porque o outro a reconhece em si, em facto ou potencialmente. O amor é fluxo, não existe parado. Ele existe como um sangue que se desloca de um corpo para o outro, difundindo o sentido da vida, portanto enquanto realidade partilhável. Ama-se porque se tem a experiência do amor. E a ausência do amor impossibilita a possibilidade de contacto real.

 

Uma crença muito pessoal que em mim subsiste é que não é possível julgar e compreender ao mesmo tempo. Julgamento e compreensão são dois pólos paralelos na percepção da conduta humana. Penso que o conceito de culpa é um conceito inútil no contacto real com o outro. A não ser que pretendamos ser juízes, quando queremos perceber a conduta de alguém é necessário substituir o conceito de culpa pela de responsabilidade.

 

A culpa compreende a identificação de um acusável. Alguém em quem recai toda a explicação de um acto. É um conceito fechado sobre si próprio pois quando temos a causa e o efeito não há mais progresso possível. Realmente, se alguém pudesse ser definido apenas por sua “maldade” faria todo o sentido procurar culpados. Mas um assassino não é apenas um assassino, ele não é sequer a totalidade dos seus actos, é um ser-no-mundo, que influi sobre este mundo e este mundo nele.

 

Como se diz neste documentário, a quantidade de pessoas que se encarcera numa prisão não é igualmente proporcional a segurança nas ruas. O que se passa parece ser o oposto, quanto mais pessoas são encarceradas mais as ruas se tornam perigosas e mais necessidade há de se encarcerar pessoas.

 

 O conceito de responsabilidade é um conceito que difunde. Não interessa quem tem mais ou menos responsabilidade por um acto. É certo que cada um é, em última instância o único que pode definir os seus actos. E cada um, desde a criança ao idoso, deve ser responsável e responsabilizado por seus actos. Mas este não é um ponto final, não estamos falando de culpa mas de responsabilidade.  Se exigimos de cada um a responsabilidade pelos seus actos devemos também exigir de nós todos enquanto grupo a responsabilidade pelo contexto onde esses actos se manifestam.

 

Sempre que se viola, se assassina, se corrompe, a primeira tendência é demonstrar a nossa repulsa ao acto. A repulsa significa que colocamos uma distância entre nós e esse acontecimento. Como diz Zimbardo, estamos sempre dispostos a envenenar a alma humana e desresponsabilizar o sistema. O sistema que nós todos criamos e que permitimos que se mantenha. Por isso não nos interessa responsabilidades, mas culpa. 

 

Um acontecimento recente em nossa sociedade que ilustra muito bem tudo isso, foi o fenómeno do jogo da bolha. O jogo da bolha é o exemplo elucidativo de um sistema onde cada um está pessoalmente comprometido pelos seus actos (“entra quem quer, por sua conta e risco e ninguém é responsável pelos actos do outro ou pelo sistema”) mas simultaneamente os actos de cada um influencia todo o sistema e o sistema como um todo influencia os actos de cada um. Quando o sistema falha é fácil identificar o culpado, alguém que não cumpriu as regras do jogo. O jogo da bolha é uma analogia impressionante de certos aspectos da sociedade e do conceito de culpa.

 

Não estamos realmente preocupados com a distância que criamos entre nós e os outros.  Mas é a distância em relação aos outros que criam a permeabilidade aos actos de despersonalização que depois julgamos separadamente dum sistema que despersonaliza o outro. Quando a existência de alguém não é reconhecida, como pessoa única, irrepetível e continuo no tempo, essa pessoa não se reconhece como tal e consequentemente não reconhece o outro como tal.

 

Quando julgamos um assassinato, uma violação contra uma pessoa nunca temos em conta se realmente era pessoa. Lá porque nós vemos a pessoa não quer dizer que o “assassino” ou “violador” vê também esta pessoa ou o viu no momento em que realizava o acto. Há uma enorme diferença entre matar uma pessoa e matar um objecto em nosso mundo. Quando não estamos em contacto com nós mesmos não podemos entrar em contacto com o outro porque é da analogia como o nosso corpo (que contém um ser) que percebemos o corpo do outro como cerne de um ser similar à nós e não como um objecto em nosso mundo.

 

Shakespeare Behind Bars” testemunha de forma tocante, comovente e sensível, o contacto do homem com sua humanidade. Representar é paradoxalmente, um acto de espontaneidade, de genuíno contacto com afectos, de comunicação autêntica. O contacto com afectos, a comunicação autêntica, são actos de crescimento, de realização, de ser. Representar é entrar em contacto com nossa raiva, nossa revolta, com nossa tristeza, mas também com nossa alegria com nosso regozijo.

 

Sofrimento, tristeza, felicidade, alegria… conseguir partilhar tudo isso com outra pessoa é penetrar a plenitude da vida. São os laços de dor e de prazer que nos realizam com o outro e com nós memos.  Quando nos libertamos das nossas defesas, abrimos o peito para os aguilhões e os projécteis do sofrimento, mas a dor, como diz Shakespeare é “herança natural da carne”. O único sofrimento realmente evitável é o recuo para a solidão.

 

Erigir sobre nosso corpo armaduras, protege-nos dos murros e das mordeduras no contacto com o outro, mas protege-nos igualmente das carícias e dos beijos, protege-nos da plenitude da vida e torna-nos reis no vazio.   

 

Caplan Neves

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: