«Shakespeare atrás das grades»

ssbposter2

Tendo em conta a minha formação académica (área da sociologia) o que mais me captou a atenção, no documentário foi a dimensão do Programa Educacional que uma das Prisões Americanas, da mais alta segurança, se propõe. Precisamente a de transformar assassinos, violadores, criminosos em actores e como se esta já não fosse tarefa árdua, fazê-los interpretar peças de Shakespeare consideradas extremamente ricas e difíceis de interpretação, com textos veramente complexos.

– A riqueza desse projecto encontra os seus fundamentos num conceito sociológico, fundamental neste contexto, que é o conceito da Reintegração Social. Visto que existem indivíduos que por não cumprirem as regras da sociedade, ou por assumirem comportamentos desviantes, acabam por ter que sofrer sanções mais ou menos pesadas tendo em conta o grau ou a gravidade do acto cometido.

A reintegração será todo o processo pelo qual terão que passar de forma a serem re-educados (passar por uma nova socialização) e de forma a estarem preparados para se re-integrarem na sociedade novamente.

Enquanto em Cabo Verde estamos ainda numa dimensão quantitativa, ou seja, a preocupação fundamental é a construção de prisões, os EUA já caminham para uma dimensão tão qualitativa do conceito de reintegração social com propostas de programa educacionais tão ambiciosos, arriscadas, de grande dimensão…

Conceitos sociológicos à parte porque tendo em conta a abrangência de conceitos que são trabalhados pelo documentário, desde a questão da socialização do indivíduo, dos grupos de influência, dos agentes socializadores, à importância dos valores, ou outras questões do domínio da psicologia como a liderança de grupos (os tais mentores dos indivíduos), a motivação, o comportamento do indivíduo, não se tem a pretensão de tudo conseguir resumir num texto.

 – Outra questão fundamental do documentário é a riqueza dos intervenientes, ou o conteúdo das suas histórias de vida, não tanto as histórias que eles representaram enquanto actores, que também é de se destacar. Como o próprio encenador da peça diz: «(…) durante cerca de quase 14 anos tem vindo a trabalhar só com peças de Shakespeare e que muito tem vindo a aprender com as personagens por ele criadas, defendendo que estas são riquíssimas para o estudo do comportamento humano». Algo que aguça a curiosidade de qualquer amante desta temática.

A história de vida dos intervenientes, isto é, a dos actores da peça enquanto homens, foi o que mais me sensibilizou no documentário. A forma como os mesmos lidam com os seus medos, as suas fraquezas, ou forças….de forma a poder encarar de frente as suas personagens.

Histórias chocantes, tristes, tocantes, ou comovedoras e que mostram a realidade nua e crua da falta de liberdade que o Homem pode estar sujeito ou que o Homem é capaz de se fazer sujeitar.

– Em relação a montagem da peça o documentário dá uma boa visão do que é pôr uma peça em cena, de todo o trabalho por detrás e que leva o seu tempo e o seu tanto de paciência, dedicação e empenho por parte de todos. Em que cada interveniente por mais pequeno que seja o seu papel, é uma peça fundamental do processo. E que enquanto cada um não estiver bem com os seus traumas ou problemas pessoais ou chamemos-lhes «demónios do passado ou mesmo do presente e futuro», tal irá influenciar todo o processo desde da montagem à apresentação.

– Outras questões de ressaltar, foi o facto de por um lado, ter havido o cuidado de se adequar o próprio tema, abordado na peça, ao contexto onde ele é trabalhado (a prisão).

O tema do perdão, da indulgência, que um dos intervenientes analisou de forma extremamente rica, singular e até mesmo sociológica que «se não houvesse perdão seria uma anarquia total». O que ele chama de anarquia total o sociólogo francês Émile Durkheim chamou de anomia que não é mais do que a ausência de regras na sociedade. A forma como a peça levou a este interveniente a arrepender-se dos seus actos mostra bem a frase do João Branco de que o «teatro dá esperança ao indivíduo».

Por outro lado, é interessante como alguns papéis desempenhados parecem ter escolhido os seus intervenientes. Por exemplo a semelhança do papel que o actor que iria fazer-se de mulher com a história de vida do próprio actor… e como isso ajudou a este actor a representar ou a melhorar o seu desempenho. O mais interessante que este actor inicialmente nem queria o papel, que como ele próprio disse, foi-lhe atribuído, ou imposto, mas no decorrer do processo realiza a dimensão de tal escolha.

Em suma, o documentário é extremamente rico não só em termos da aprendizagem do processo de montagem de uma peça de teatro mas também da aprendizagem da própria vida. De como as vezes as pessoas se encontram em encruzilhadas e como é importante ter empatia, colocar-se no lugar do outro para entendermos essas encruzilhadas. E não ter juízos de valores sobre as encruzilhadas de cada um.

 

Patrícia Monteiro

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: