Um Olhar Sobre “O gato malhado e andorinha sinhá: uma história de amor”

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É no modo como olhamos, e na distância em que nos situamos em relação à diversidade e à diferença, que reside o “exótico” ou o “bárbaro”. O traço comum entre estes dois termos é a pressuposição de distância em relação à aquilo que pretendem designar. Trata-se pois de idealização do diverso, do diferente. Enaltecimento do desconhecido, ou aversão no desconhecimento. Idealização compreende sempre distância. A idealização daquilo que está próximo é inconcebível, porque as informações que nos chegam do objecto real exigem constante acomodação do conteúdo idealizado.

 

Proximidade e diversidade talvez sejam das questões mais essenciais e mais difíceis das relações interpessoais. A diversidade diminui com a proximidade. Quanto mais longe estamos do outro, mais é a tendência a polarização (eu/tu nós/eles), ao absolutismo da diferença e a idealização do diverso (positiva ou negativa). Quando nos aproximamos do diverso, encontramos a similitude. Percebemos como aquilo que nos parece tão profundamente nosso pode encontrar eco no outro. E mais, que a diferença reforça a proximidade no sentido em que ela se esmorece com a complementaridade.  

 

No fundo trata-se de saber se a diversidade e a diferença residem na proximidade ou na distância. Se a proximidade ou a distância reforçam ou atenuam o sentido do diferente, do diverso. Aproximar-se do outro, contempla-lo na sua totalidade, encará-la como uma realidade, e não como objecto abstracto da nossa percepção do mundo, é penetrar na essência do diverso. É na diversidade e na diferença que reside a consciência última do outro como realidade autónoma e não como um objecto em nosso mundo. Portanto, o reconhecimento da diferença e da diversidade coloca-nos em contacto com a similitude, pelo reconhecimento do outro como entidade alheia a nós e, como nós, cerne de um ser e de uma consciência do mundo própria e particular.

 

São estas questões que se põem quando se vê a aproximação de dois seres tão diversos, tão diferentes, movendo-se em contextos tão distintos como o céu e a terra, chegando a ser inimigos naturais: um gato malhado e uma andorinha sinhá.

 

Nenhum presente é mais enriquecedor do que aqueles que nos convidam a descoberta, a reflexão e a resignificação do mundo. Foi este o presente que nos doou a companhia teatral do Centro Cultural Português com a apresentação da peça O gato malhado e a andorinha sinhá: uma história de amor”. O espectador é convidado à encontrar um mundo encantado onde o vento conta à manhã uma linda história de amor, que esta conta ao tempo para ganhar uma linda rosa azul.

 

Ainda que tenha um triste final, é uma peça essencialmente alegre e bem-humorada, com uma interessante montagem, música original, singela mas criativa concepção de mascaras e agradáveis efeitos de som e luz. A peça é indubitavelmente uma óptima sugestão para pequenos e crescidos que queiram passar um bom momento e aproveitar para pensar num amanhã mais aberto a aceitação e exaltação da diversidade e das diferenças.

 

O que criticamente se pode apontar à peça, é ter-se terminado demasiado depressa. “Demasiado depressa” no sentido em que transmite à plateia, a sensação e a angustiante esperança (aliás desesperançada) de que aquilo não deveria terminar assim. Neste sentido pode-se apontar que o final acaba por ser demasiado seco. Uma secura que ao contrario do que se pretendia na peça, transmite uma sensação de determinismo, de fatalidade do destino, de conformismo. Neste sentido, talvez se perdeu um pouco a essência do fantástico conto em que se baseia. Era desejável que se prolongasse a dor da separação. A dor de se viver preso a recordações quando o acesso ao futuro parece vedado. Era importante que o gato malhado procurasse a cascavel e que a andorinha sinhá o visse do alto e lhe adivinhasse e reconhecesse em si a dor que o habitava. Era importante a identificação na dor. Era importante que esses dois seres tão distintos deixassem a plateia experimentar um pouco mais essa dor que partilhavam em conjunto. Era importante que a plateia partilhasse com eles um pouco mais essa dor, para depois poderem dizer como disse Jorge Amado, que “o mundo só vai prestar/ para nele se viver/ no dia em que a gente ver/ um gato maltês casar/ com uma alegre andorinha/ saindo os dois a voar/ o noivo e noivinha/ Dom Gato e Dona Andorinha”.

 

 

Caplan Neves

 

 

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