Shakespeare Behind Bars: quando a vida renasce com o teatro

 

 

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No seu livro “Tornar-se Pessoa”, Carl Rogers afirma que “aquilo que há de único e de mais pessoal em cada um de nôs é o mesmo sentimento que, se fosse partilhado ou expresso, falaria mais profundamente aos outros.” Em poucas palavras, o que Carl Rogers nos quer dizer é que a alma de um só homem exprime-se na linguagem da Humanidade. É por isso que a arte, nesta civilização dividida por diferenças raciais, culturais e económicas, é a ponte construída sobre sentimentos e emoções que une os homens. Independentemente da corrente artística e das peculiaridades do artista, a matéria-prima de qualquer obra de arte é o próprio Homem.

 

A universalidade da linguagem artística foi um dos aspectos que mais me impressionou no documentário SHAKESPEARE BEHIND THE BARS. Quando os prisioneiros de Kentucky Luther Lucket procuram encarnar e compreender as personagens de A TEMPESTADE, no fundo, o que eles estão a procura é de uma compreensão de si mesmo. Ao vivenciarem os problemas existenciais daquelas personagens, eles estão a reviver os seus próprios dramas existenciais, os seus próprios traumas.

 

Todo o esforço empregado para perceber as personagens representa, na verdade, um conflito que se opera no interior daqueles prisioneiros. Este conflito, embora seja pungente, uma vez que desenterra lembranças e experiências de vida dolorosas, tem uma função catártica porque permite uma libertação, o renascer de uma esperança há muito tempo morta e enterrada por um sem número de coerções, estigmas, punições e julgamentos sociais. E esta esperança, por sua vez, encerra um pedido de perdão, de aceitação, um desejo de reabilitação e reinserção que apela à capacidade de cada um compreender e aceitar o outro.

 

A identificação que se opera entre aqueles prisioneiros e as suas personagens acaba por revelar àqueles a verdade acerca de si mesmo, possibilitando-lhes ver quem realmente são e descobrir o porquê dos seus actos criminosos. E é neste sentido que a peça teatral assume uma qualidade terapêutica, ao permitir que eles enfrentem e comuniquem os seus próprios fantasmas. É na procura pelo conhecimento e pela aceitação de si mesmo e na, consequentemente busca pelo perdão, é que reside toda acção terapêutica da peça teatral.

 

Eu que há muito tempo ando a estudar as psicoterapias tradicionais, confesso que nenhuma delas me parece ter a mesma eficácia que a terapia pela arte. Digo isso por uma razão muito simples: enquanto as outras terapias e os outros métodos de avaliação e intervenção psicológicas transformam o homem num objecto ou numa entidade diagnóstica, valorizando mais os problemas do que a própria individualidade do paciente, a arte devolve ao homem a sua humanidade, revela-lhe a sua essência, põe a nu a sua alma. E toda a terapia que não abre o caminho para o autoconhecimento acaba por falhar. Alias, é precisamente isso que o psicanalista Carl Gustav Jung nos tenta comunicar quando afirma que “o autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.”.

 

  Em todo documentário o que também me marcou profundamente foi ver o quanto a vida daqueles prisioneiros mudou positivamente com a representação das peças de Shakespeare. E essa mudança pode ser vista no modo como encaram a vida, no modo como se relacionam entre si e na certeza com que buscam uma segunda oportunidade para reconstruírem a sua vida. Carl Rogers nos diz ainda no mesmo livro acima referido que “não podemos mudar, não podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Então a mudança parece operar-se mesmo sem termos consciência disso.” Aqueles prisioneiros ao invés de continuarem a reprimir seus traumas, a esconder de si mesmo os seus crimes, aprenderam, com as peças teatrais, a superarem-nos, aprenderam a viver normalmente com tudo o que de mau lhes aconteceu, aprenderam a reconhecer o mal que fizeram as suas vitimas e a procurar meios de reabilitação, oportunidades de redenção.

 

No fundo é isso que Rogers nos quer dizer: a mudança ocorre quando damos a nós mesmo uma oportunidade de nos conhecer profundamente e de aceitarmos que o mal e o bem, a graça e a perversidade a que Shakespeare alude em Romeu e Julieta, residem em nós mesmo e que, portanto cabe a nós a responsabilidade de transformar no céu ou no inferno a nossa e a vida das pessoas de quem gostamos.

 

Mas Shakespeare Behind the Bars é também um desafio à própria civilização humana, que sendo capaz de segregar, odiar, descriminar e matar, é incapaz de perdoar e compreender o outro. Pergunto que oportunidade dará a Humanidade àqueles prisioneiros? Será a sociedade actual, que vive afundada na cegueira de que fala Saramago, capaz também de perdoar aqueles seres?    

 

 

 

 

Érico Medina

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3 comentários

  1. João Branco said,

    26/01/2009 às 19:14

    Muito bom. A coisa avança! Força! 4ª feira farei um post em vossa homenagem no Café Margoso.

  2. Tchá said,

    28/01/2009 às 16:42

    Mais do que uma crítica a ‘Shakespeare behind the bars’ isto é uma espécie de tese de apoio à mais doce das terapias… pela ARTE. Força aí, pessoal, com as críticas e com este novo blog.
    Um brasa

  3. Fretson Lopes said,

    12/02/2009 às 10:50

    Queria apresentar os meus parabéns, pois, esse é o tipo de trabalho que exige muito conhecimento, e é o que estás a demonstrar, mostras a necessidade de uma pesquisa exaustiva, para que possamos procurar atingir a compreensão das coisas.
    Parabéns.


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