Um Olhar Sobre “Máscaras”

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Duas criaturas aglutinadas que se movem sobe o fundo negro. Sobre eles a túnica do amor, o liame que os faz um com o objecto amado e revela o sentido da existência, o “ponteiro do relógio que dá significado ao tempo”. Dois corpos que se movem vazias até que encontram o amor (os dançarinos aglutinados) que lhes conduzem ao fluxo da vida (as oscilações do baloiço). Então o arquétipo do amor se manifesta em duas faces distintas:

– Uma face libidinosa e lasciva, um possante sim ao desejo, uma entrega lúbrica à vida; e uma face romântica, arrebatada pelo sonho, que vê na face do objecto amado a transcendência do ser, uma porta aberta à um paraíso que sobrepuja os limites do ser patente.

Duas faces da mesma moeda. Um arlequim risonho que transporta entre os lábios o sabor de um beijo, um rosto tristonho que carrega no peito a supereminência de um olhar. O sonho e o desejo dançam entre si, tal como os dançarinos aglutinados, tão distintos e tão articulados, reflectindo a homogeneidade da diferença, a divergência que se desvanece na complementaridade.

Então, como no próprio amor, a hilaridade do arlequim, com a sua lábia lasciva, as suas investidas pelo crioulo e suas incisas (“basa basa / vai pra casa casa / que isto aqui não é um filme boi”) convive com a melancolia, a tristeza e o abatimento do pierrot, o dedo na ferida aberta do amor.

Na plateia o espectador é precipitado nessa torrente extasiante, entre o desejo e o sonho, o riso e o pranto. Na sua mão segura um rebuçado que aperta entre os dedos, dividido entre o desejo lascivo de trinca-lo e a espera sonhadora de um momento.

O auge da peça anuncia o derradeiro desfecho. É o caos: as vozes divergentes na sentença e no tom, corpos que se movem quebrando os limites entre a plateia e o espaço cénico, a movimentação acentuada dos dançarinos aglutinados, a musica harmónica que fluí, o estupefacção dos espectadores… o caos que reflecte a energia poderosa que é o amor. Porque o amor também se escreve assim: o olhar de um pierrot e o beijo de um arlequim.

 

Caplan Neves

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