Um Olhar Sobre “Shakespeare Behind Bars”

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Anuindo com Aristóteles que o tempo não é um conjunto de instantes, pode-se contrapor que certos instantes definem o significado do tempo. Certos instantes sobrepujam o significado mensurável do tempo. As pessoas mudam e, muitas vezes, as mudanças significativas não ocorrem como processo num fluxo temporal, mas como metamorfoses intempestivas.    

 

Toda a mudança significativa ocorre por intermédio de experiências emocionais significativas.  A mais significativa das experiências, a mais dolorosa, a mais enriquecedora, a mais promotora de crescimento é o re/encontro do homem consigo mesmo. O filme “Shakespeare Behind Bars” é um documentário que testemunha de forma tocante e sensível um encontro dessa natureza.

 

São “assassinos”, “violadores”, “criminosos”, que encontram Shakespeare através das grades de uma prisão de alta segurança. São homens que trazem traumas e histórias, das quais estão intelectualmente conscientes mas cujas associações emocionais reprimiram violentamente. Representar Shakespeare é para esses homens, morder violentamente suas feridas abertas. Saborear a humanidade em sua carne e pela primeira vez sentirem-se abertos a experimentar verdadeiramente a humanidade no outro.   

 

Pode-se falar de afectos, de amor, de perdão, pode-se falar do outro e de nós próprios, pode-se estar familiarizado com todas as palavras que exprimem o sentido da vida, sem que este sentido se revele. Todos reconhecemos essas palavras, mas não passam de “coisas mortas”, quando o conceito subjacente não existe interiormente. A pessoa que fala de amor sem amar limita-se a brincar com os sons da palavra. Limita-se a passagem do ar pelo aparelho fonador que ressoa pelas vibrações simpáticas nas cavidades da sua cabeça. 

 

Como disse Vygotsky “as formas mais elevadas do intercâmbio humano só são possíveis porque o pensamento do homem, reflecte a actualidade conceitualizada. O significado das palavras é simultaneamente unidade do pensamento generalizante e do intercâmbio social. O outro compreende quando lhe dizemos “amo-te” porque reconhece em si o amor que também ele sente. Não é explicável, mas compreensível.

 

O símbolo linguístico (a-m-o-r) não transmite uma realidade interior mas permite uma manifestação tácita dessa realidade que chega ao outro, porque o outro a reconhece em si, em facto ou potencialmente. O amor é fluxo, não existe parado. Ele existe como um sangue que se desloca de um corpo para o outro, difundindo o sentido da vida, portanto enquanto realidade partilhável. Ama-se porque se tem a experiência do amor. E a ausência do amor impossibilita a possibilidade de contacto real.

 

Uma crença muito pessoal que em mim subsiste é que não é possível julgar e compreender ao mesmo tempo. Julgamento e compreensão são dois pólos paralelos na percepção da conduta humana. Penso que o conceito de culpa é um conceito inútil no contacto real com o outro. A não ser que pretendamos ser juízes, quando queremos perceber a conduta de alguém é necessário substituir o conceito de culpa pela de responsabilidade.

 

A culpa compreende a identificação de um acusável. Alguém em quem recai toda a explicação de um acto. É um conceito fechado sobre si próprio pois quando temos a causa e o efeito não há mais progresso possível. Realmente, se alguém pudesse ser definido apenas por sua “maldade” faria todo o sentido procurar culpados. Mas um assassino não é apenas um assassino, ele não é sequer a totalidade dos seus actos, é um ser-no-mundo, que influi sobre este mundo e este mundo nele.

 

Como se diz neste documentário, a quantidade de pessoas que se encarcera numa prisão não é igualmente proporcional a segurança nas ruas. O que se passa parece ser o oposto, quanto mais pessoas são encarceradas mais as ruas se tornam perigosas e mais necessidade há de se encarcerar pessoas.

 

 O conceito de responsabilidade é um conceito que difunde. Não interessa quem tem mais ou menos responsabilidade por um acto. É certo que cada um é, em última instância o único que pode definir os seus actos. E cada um, desde a criança ao idoso, deve ser responsável e responsabilizado por seus actos. Mas este não é um ponto final, não estamos falando de culpa mas de responsabilidade.  Se exigimos de cada um a responsabilidade pelos seus actos devemos também exigir de nós todos enquanto grupo a responsabilidade pelo contexto onde esses actos se manifestam.

 

Sempre que se viola, se assassina, se corrompe, a primeira tendência é demonstrar a nossa repulsa ao acto. A repulsa significa que colocamos uma distância entre nós e esse acontecimento. Como diz Zimbardo, estamos sempre dispostos a envenenar a alma humana e desresponsabilizar o sistema. O sistema que nós todos criamos e que permitimos que se mantenha. Por isso não nos interessa responsabilidades, mas culpa. 

 

Um acontecimento recente em nossa sociedade que ilustra muito bem tudo isso, foi o fenómeno do jogo da bolha. O jogo da bolha é o exemplo elucidativo de um sistema onde cada um está pessoalmente comprometido pelos seus actos (“entra quem quer, por sua conta e risco e ninguém é responsável pelos actos do outro ou pelo sistema”) mas simultaneamente os actos de cada um influencia todo o sistema e o sistema como um todo influencia os actos de cada um. Quando o sistema falha é fácil identificar o culpado, alguém que não cumpriu as regras do jogo. O jogo da bolha é uma analogia impressionante de certos aspectos da sociedade e do conceito de culpa.

 

Não estamos realmente preocupados com a distância que criamos entre nós e os outros.  Mas é a distância em relação aos outros que criam a permeabilidade aos actos de despersonalização que depois julgamos separadamente dum sistema que despersonaliza o outro. Quando a existência de alguém não é reconhecida, como pessoa única, irrepetível e continuo no tempo, essa pessoa não se reconhece como tal e consequentemente não reconhece o outro como tal.

 

Quando julgamos um assassinato, uma violação contra uma pessoa nunca temos em conta se realmente era pessoa. Lá porque nós vemos a pessoa não quer dizer que o “assassino” ou “violador” vê também esta pessoa ou o viu no momento em que realizava o acto. Há uma enorme diferença entre matar uma pessoa e matar um objecto em nosso mundo. Quando não estamos em contacto com nós mesmos não podemos entrar em contacto com o outro porque é da analogia como o nosso corpo (que contém um ser) que percebemos o corpo do outro como cerne de um ser similar à nós e não como um objecto em nosso mundo.

 

Shakespeare Behind Bars” testemunha de forma tocante, comovente e sensível, o contacto do homem com sua humanidade. Representar é paradoxalmente, um acto de espontaneidade, de genuíno contacto com afectos, de comunicação autêntica. O contacto com afectos, a comunicação autêntica, são actos de crescimento, de realização, de ser. Representar é entrar em contacto com nossa raiva, nossa revolta, com nossa tristeza, mas também com nossa alegria com nosso regozijo.

 

Sofrimento, tristeza, felicidade, alegria… conseguir partilhar tudo isso com outra pessoa é penetrar a plenitude da vida. São os laços de dor e de prazer que nos realizam com o outro e com nós memos.  Quando nos libertamos das nossas defesas, abrimos o peito para os aguilhões e os projécteis do sofrimento, mas a dor, como diz Shakespeare é “herança natural da carne”. O único sofrimento realmente evitável é o recuo para a solidão.

 

Erigir sobre nosso corpo armaduras, protege-nos dos murros e das mordeduras no contacto com o outro, mas protege-nos igualmente das carícias e dos beijos, protege-nos da plenitude da vida e torna-nos reis no vazio.   

 

Caplan Neves

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«Shakespeare atrás das grades»

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Tendo em conta a minha formação académica (área da sociologia) o que mais me captou a atenção, no documentário foi a dimensão do Programa Educacional que uma das Prisões Americanas, da mais alta segurança, se propõe. Precisamente a de transformar assassinos, violadores, criminosos em actores e como se esta já não fosse tarefa árdua, fazê-los interpretar peças de Shakespeare consideradas extremamente ricas e difíceis de interpretação, com textos veramente complexos.

– A riqueza desse projecto encontra os seus fundamentos num conceito sociológico, fundamental neste contexto, que é o conceito da Reintegração Social. Visto que existem indivíduos que por não cumprirem as regras da sociedade, ou por assumirem comportamentos desviantes, acabam por ter que sofrer sanções mais ou menos pesadas tendo em conta o grau ou a gravidade do acto cometido.

A reintegração será todo o processo pelo qual terão que passar de forma a serem re-educados (passar por uma nova socialização) e de forma a estarem preparados para se re-integrarem na sociedade novamente.

Enquanto em Cabo Verde estamos ainda numa dimensão quantitativa, ou seja, a preocupação fundamental é a construção de prisões, os EUA já caminham para uma dimensão tão qualitativa do conceito de reintegração social com propostas de programa educacionais tão ambiciosos, arriscadas, de grande dimensão…

Conceitos sociológicos à parte porque tendo em conta a abrangência de conceitos que são trabalhados pelo documentário, desde a questão da socialização do indivíduo, dos grupos de influência, dos agentes socializadores, à importância dos valores, ou outras questões do domínio da psicologia como a liderança de grupos (os tais mentores dos indivíduos), a motivação, o comportamento do indivíduo, não se tem a pretensão de tudo conseguir resumir num texto.

 – Outra questão fundamental do documentário é a riqueza dos intervenientes, ou o conteúdo das suas histórias de vida, não tanto as histórias que eles representaram enquanto actores, que também é de se destacar. Como o próprio encenador da peça diz: «(…) durante cerca de quase 14 anos tem vindo a trabalhar só com peças de Shakespeare e que muito tem vindo a aprender com as personagens por ele criadas, defendendo que estas são riquíssimas para o estudo do comportamento humano». Algo que aguça a curiosidade de qualquer amante desta temática.

A história de vida dos intervenientes, isto é, a dos actores da peça enquanto homens, foi o que mais me sensibilizou no documentário. A forma como os mesmos lidam com os seus medos, as suas fraquezas, ou forças….de forma a poder encarar de frente as suas personagens.

Histórias chocantes, tristes, tocantes, ou comovedoras e que mostram a realidade nua e crua da falta de liberdade que o Homem pode estar sujeito ou que o Homem é capaz de se fazer sujeitar.

– Em relação a montagem da peça o documentário dá uma boa visão do que é pôr uma peça em cena, de todo o trabalho por detrás e que leva o seu tempo e o seu tanto de paciência, dedicação e empenho por parte de todos. Em que cada interveniente por mais pequeno que seja o seu papel, é uma peça fundamental do processo. E que enquanto cada um não estiver bem com os seus traumas ou problemas pessoais ou chamemos-lhes «demónios do passado ou mesmo do presente e futuro», tal irá influenciar todo o processo desde da montagem à apresentação.

– Outras questões de ressaltar, foi o facto de por um lado, ter havido o cuidado de se adequar o próprio tema, abordado na peça, ao contexto onde ele é trabalhado (a prisão).

O tema do perdão, da indulgência, que um dos intervenientes analisou de forma extremamente rica, singular e até mesmo sociológica que «se não houvesse perdão seria uma anarquia total». O que ele chama de anarquia total o sociólogo francês Émile Durkheim chamou de anomia que não é mais do que a ausência de regras na sociedade. A forma como a peça levou a este interveniente a arrepender-se dos seus actos mostra bem a frase do João Branco de que o «teatro dá esperança ao indivíduo».

Por outro lado, é interessante como alguns papéis desempenhados parecem ter escolhido os seus intervenientes. Por exemplo a semelhança do papel que o actor que iria fazer-se de mulher com a história de vida do próprio actor… e como isso ajudou a este actor a representar ou a melhorar o seu desempenho. O mais interessante que este actor inicialmente nem queria o papel, que como ele próprio disse, foi-lhe atribuído, ou imposto, mas no decorrer do processo realiza a dimensão de tal escolha.

Em suma, o documentário é extremamente rico não só em termos da aprendizagem do processo de montagem de uma peça de teatro mas também da aprendizagem da própria vida. De como as vezes as pessoas se encontram em encruzilhadas e como é importante ter empatia, colocar-se no lugar do outro para entendermos essas encruzilhadas. E não ter juízos de valores sobre as encruzilhadas de cada um.

 

Patrícia Monteiro

Parabéns César Lélis

Prémio de Mérito Teatral 2009 será atribuido ao actor César Lélis

Prémio de Mérito Teatral 2009 será atribuído ao actor César Lélis

 

Eis três condições essenciais para a emergência da arte:

 

  • Espontaneidade – a arte deve inevitavelmente evoluir de dentro para fora (assumindo metaforicamente que exista tal distinção). Não se pode impor divindade aos gestos. Por mais estudada e apurada for a técnica, a beleza surge da naturalidade do gesto. O aperfeiçoamento da técnica é necessária, mas a arte emerge quando a técnica incorpora-se e é esquecida. Surge assim a espontaneidade e a beleza. O estilo de representação de César Lélis é a própria encarnação da espontaneidade. Dispensa toda espécie de artificialidade e sofisticação, limita-se a ser ele próprio e… resulta.

 

  • Criatividade – a originalidade inventiva relaciona-se directamente com a espontaneidade, o afrouxamento daquilo que venha a ser a “realidade factual” e a abertura a expressão interior. A criatividade não surge de um esforço deliberado no sentido da originalidade da mensagem mas da expressão daquilo que naturalmente surge no seio e para além daquilo que percebemos e sentimos, sem concessões relativamente ao consensual. A originalidade inventiva de César Lélis não surge da necessidade de inovar, pelo contrário, o essencial não varia. Mas resulta sempre novo, porque ela é a própria expressão natural de se ser fluxo.

 

  • Comunicabilidade – a distinção entre aquilo que convencionalmente denominamos arte e aquilo que vem a ser loucura ou devaneio, não reside fundamentalmente na natureza daquilo que se exprime, mas na própria expressibilidade do que se exprime. César Lélis comunica profundamente, toca o âmago da nossa hilaridade, fá-lo naturalmente. É necessário distinguir o que venha a ser “populista” (compreendida aqui no sentido depreciativo) do que é a comunicabilidade. A comunicabilidade, contrariamente ao “populista”, relaciona-se ao contacto íntimo do artista com o público.  César Lélis é o actor cabo-verdiano mais popular em Cabo Verde, não pela tendência ao populismo, mas porque consegue como poucos um tal contacto com o seu público.    

 

Parabéns César Lélis pela espontaneidade, pela criatividade e pela comunicabilidade. É o primeiro actor a receber o prémio de mérito teatral do Mindelact e merece-o, não apenas pelos trinta anos de carreira, não apenas por ser a alma dos Juventude em Marcha, não apenas pela popularidade, mas fundamentalmente pelo artista que é, e esperemos, continue a ser por muitos anos.       

 

 

    Caplan Neves

Um Olhar Sobre “O gato malhado e andorinha sinhá: uma história de amor”

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É no modo como olhamos, e na distância em que nos situamos em relação à diversidade e à diferença, que reside o “exótico” ou o “bárbaro”. O traço comum entre estes dois termos é a pressuposição de distância em relação à aquilo que pretendem designar. Trata-se pois de idealização do diverso, do diferente. Enaltecimento do desconhecido, ou aversão no desconhecimento. Idealização compreende sempre distância. A idealização daquilo que está próximo é inconcebível, porque as informações que nos chegam do objecto real exigem constante acomodação do conteúdo idealizado.

 

Proximidade e diversidade talvez sejam das questões mais essenciais e mais difíceis das relações interpessoais. A diversidade diminui com a proximidade. Quanto mais longe estamos do outro, mais é a tendência a polarização (eu/tu nós/eles), ao absolutismo da diferença e a idealização do diverso (positiva ou negativa). Quando nos aproximamos do diverso, encontramos a similitude. Percebemos como aquilo que nos parece tão profundamente nosso pode encontrar eco no outro. E mais, que a diferença reforça a proximidade no sentido em que ela se esmorece com a complementaridade.  

 

No fundo trata-se de saber se a diversidade e a diferença residem na proximidade ou na distância. Se a proximidade ou a distância reforçam ou atenuam o sentido do diferente, do diverso. Aproximar-se do outro, contempla-lo na sua totalidade, encará-la como uma realidade, e não como objecto abstracto da nossa percepção do mundo, é penetrar na essência do diverso. É na diversidade e na diferença que reside a consciência última do outro como realidade autónoma e não como um objecto em nosso mundo. Portanto, o reconhecimento da diferença e da diversidade coloca-nos em contacto com a similitude, pelo reconhecimento do outro como entidade alheia a nós e, como nós, cerne de um ser e de uma consciência do mundo própria e particular.

 

São estas questões que se põem quando se vê a aproximação de dois seres tão diversos, tão diferentes, movendo-se em contextos tão distintos como o céu e a terra, chegando a ser inimigos naturais: um gato malhado e uma andorinha sinhá.

 

Nenhum presente é mais enriquecedor do que aqueles que nos convidam a descoberta, a reflexão e a resignificação do mundo. Foi este o presente que nos doou a companhia teatral do Centro Cultural Português com a apresentação da peça O gato malhado e a andorinha sinhá: uma história de amor”. O espectador é convidado à encontrar um mundo encantado onde o vento conta à manhã uma linda história de amor, que esta conta ao tempo para ganhar uma linda rosa azul.

 

Ainda que tenha um triste final, é uma peça essencialmente alegre e bem-humorada, com uma interessante montagem, música original, singela mas criativa concepção de mascaras e agradáveis efeitos de som e luz. A peça é indubitavelmente uma óptima sugestão para pequenos e crescidos que queiram passar um bom momento e aproveitar para pensar num amanhã mais aberto a aceitação e exaltação da diversidade e das diferenças.

 

O que criticamente se pode apontar à peça, é ter-se terminado demasiado depressa. “Demasiado depressa” no sentido em que transmite à plateia, a sensação e a angustiante esperança (aliás desesperançada) de que aquilo não deveria terminar assim. Neste sentido pode-se apontar que o final acaba por ser demasiado seco. Uma secura que ao contrario do que se pretendia na peça, transmite uma sensação de determinismo, de fatalidade do destino, de conformismo. Neste sentido, talvez se perdeu um pouco a essência do fantástico conto em que se baseia. Era desejável que se prolongasse a dor da separação. A dor de se viver preso a recordações quando o acesso ao futuro parece vedado. Era importante que o gato malhado procurasse a cascavel e que a andorinha sinhá o visse do alto e lhe adivinhasse e reconhecesse em si a dor que o habitava. Era importante a identificação na dor. Era importante que esses dois seres tão distintos deixassem a plateia experimentar um pouco mais essa dor que partilhavam em conjunto. Era importante que a plateia partilhasse com eles um pouco mais essa dor, para depois poderem dizer como disse Jorge Amado, que “o mundo só vai prestar/ para nele se viver/ no dia em que a gente ver/ um gato maltês casar/ com uma alegre andorinha/ saindo os dois a voar/ o noivo e noivinha/ Dom Gato e Dona Andorinha”.

 

 

Caplan Neves

 

 

Máscaras

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“Máscaras” retrata a história de dois homens apaixonados pela mesma mulher. Algo que em tempos podia suscitar algum espanto, estranheza ou mesmo uma certa polémica, mas que se trata de algo bastante comum nos nossos dias e no nosso quotidiano e que pode acontecer a qualquer um de nós “comuns mortais”. O que leva a uma certa identificação do espectador ao tema tratado.

Por um lado, um «arlequim» ousado, atrevido, com um discurso bastante convincente e atraente e, que não tem medo de “roubar” um beijo à amada. Aquele «arlequim» que toda a mulher deseja ardentemente mas que não dá sossego ao coração, como o faz o «pierrot» triste, romântico e menos ousado e atrevido.

Aquele «pierrot» que toda a mulher sonha mas que sossega por demais os nossos corações, deixando espaço e abertura para os «arlequins» da vida.

Por outro lado ainda, uma mulher bonita, de contornos atraentes, de gestos suaves e voz doce. Contudo, indecisa e dividida entre os dois grandes amores da sua vida, «entre um beijo de arlequim e um sonho de pierrot».

No decorrer da peça momentos de música e dança vão demonstrando os sentimentos que se quer exaltar.

No final uma mistura de sentimentos, “sussuros”, desejos, falas e entregas por parte dos actores, ao mesmo tempo que se comunicam com a plateia transmitindo uma vibração bastante positiva.

A boa organização da peça ficou sentida em todo o empenho e dedicação por parte de todos os participantes, seja dos actores, dos dançarinos, responsáveis pela encenação, coreografia, iluminação, cenário, figurinos, etc.

O tema foi abordado de forma suave e conseguindo captar a atenção do espectador comum, mesmo tendo em cima a responsabilidade da interpretação de um texto poético. A forma directa e breve com que o decorrer das “cenas” foram organizadas também facilitou neste aspecto.

De destacar ainda o uso de algumas expressões do quotidiano, expressões comuns de forma a provocar o riso e momentos de descontracção quebrando a monotonia que o discurso poético pode as vezes criar. Nunca um “Chiça” teve melhor momento. Ou mesmo a expressão da música do rapper Boss Ac: “Baza, baza…”

Em suma, a criatividade e originalidade na forma de tratamento do tema e a pertinência e familiaridade do mesmo, são aspectos a serem destacados.

A “junção” final teve resultados bastante positivos, pelas cores e mistura de tons, a música e o ambiente criado, o espaço usado e sentimentos exaltados e captados.

Tendo em conta a primeira apresentação da peça no último “Mindelact” pode-se afirmar que a mesma passou da formação do “embrião” ou do “feto” (passa-se a citar o actor João Branco) para o nascimento de uma criança que se for bem socializada não deixará ficar mal os demais frutos desta companhia de teatro que tão bem tem dignificado o nome do teatro cabo-verdiano. De fazer referência ainda, a colaboração da “Companhia de Raiz di Pilon” que também muito tem contribuído para o enriquecimento da cultura cabo-verdiana.

 

 

Patrícia Monteiro

 

 

Shakespeare Behind Bars: quando a vida renasce com o teatro

 

 

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No seu livro “Tornar-se Pessoa”, Carl Rogers afirma que “aquilo que há de único e de mais pessoal em cada um de nôs é o mesmo sentimento que, se fosse partilhado ou expresso, falaria mais profundamente aos outros.” Em poucas palavras, o que Carl Rogers nos quer dizer é que a alma de um só homem exprime-se na linguagem da Humanidade. É por isso que a arte, nesta civilização dividida por diferenças raciais, culturais e económicas, é a ponte construída sobre sentimentos e emoções que une os homens. Independentemente da corrente artística e das peculiaridades do artista, a matéria-prima de qualquer obra de arte é o próprio Homem.

 

A universalidade da linguagem artística foi um dos aspectos que mais me impressionou no documentário SHAKESPEARE BEHIND THE BARS. Quando os prisioneiros de Kentucky Luther Lucket procuram encarnar e compreender as personagens de A TEMPESTADE, no fundo, o que eles estão a procura é de uma compreensão de si mesmo. Ao vivenciarem os problemas existenciais daquelas personagens, eles estão a reviver os seus próprios dramas existenciais, os seus próprios traumas.

 

Todo o esforço empregado para perceber as personagens representa, na verdade, um conflito que se opera no interior daqueles prisioneiros. Este conflito, embora seja pungente, uma vez que desenterra lembranças e experiências de vida dolorosas, tem uma função catártica porque permite uma libertação, o renascer de uma esperança há muito tempo morta e enterrada por um sem número de coerções, estigmas, punições e julgamentos sociais. E esta esperança, por sua vez, encerra um pedido de perdão, de aceitação, um desejo de reabilitação e reinserção que apela à capacidade de cada um compreender e aceitar o outro.

 

A identificação que se opera entre aqueles prisioneiros e as suas personagens acaba por revelar àqueles a verdade acerca de si mesmo, possibilitando-lhes ver quem realmente são e descobrir o porquê dos seus actos criminosos. E é neste sentido que a peça teatral assume uma qualidade terapêutica, ao permitir que eles enfrentem e comuniquem os seus próprios fantasmas. É na procura pelo conhecimento e pela aceitação de si mesmo e na, consequentemente busca pelo perdão, é que reside toda acção terapêutica da peça teatral.

 

Eu que há muito tempo ando a estudar as psicoterapias tradicionais, confesso que nenhuma delas me parece ter a mesma eficácia que a terapia pela arte. Digo isso por uma razão muito simples: enquanto as outras terapias e os outros métodos de avaliação e intervenção psicológicas transformam o homem num objecto ou numa entidade diagnóstica, valorizando mais os problemas do que a própria individualidade do paciente, a arte devolve ao homem a sua humanidade, revela-lhe a sua essência, põe a nu a sua alma. E toda a terapia que não abre o caminho para o autoconhecimento acaba por falhar. Alias, é precisamente isso que o psicanalista Carl Gustav Jung nos tenta comunicar quando afirma que “o autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.”.

 

  Em todo documentário o que também me marcou profundamente foi ver o quanto a vida daqueles prisioneiros mudou positivamente com a representação das peças de Shakespeare. E essa mudança pode ser vista no modo como encaram a vida, no modo como se relacionam entre si e na certeza com que buscam uma segunda oportunidade para reconstruírem a sua vida. Carl Rogers nos diz ainda no mesmo livro acima referido que “não podemos mudar, não podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Então a mudança parece operar-se mesmo sem termos consciência disso.” Aqueles prisioneiros ao invés de continuarem a reprimir seus traumas, a esconder de si mesmo os seus crimes, aprenderam, com as peças teatrais, a superarem-nos, aprenderam a viver normalmente com tudo o que de mau lhes aconteceu, aprenderam a reconhecer o mal que fizeram as suas vitimas e a procurar meios de reabilitação, oportunidades de redenção.

 

No fundo é isso que Rogers nos quer dizer: a mudança ocorre quando damos a nós mesmo uma oportunidade de nos conhecer profundamente e de aceitarmos que o mal e o bem, a graça e a perversidade a que Shakespeare alude em Romeu e Julieta, residem em nós mesmo e que, portanto cabe a nós a responsabilidade de transformar no céu ou no inferno a nossa e a vida das pessoas de quem gostamos.

 

Mas Shakespeare Behind the Bars é também um desafio à própria civilização humana, que sendo capaz de segregar, odiar, descriminar e matar, é incapaz de perdoar e compreender o outro. Pergunto que oportunidade dará a Humanidade àqueles prisioneiros? Será a sociedade actual, que vive afundada na cegueira de que fala Saramago, capaz também de perdoar aqueles seres?    

 

 

 

 

Érico Medina

Um Olhar Sobre “Máscaras”

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Duas criaturas aglutinadas que se movem sobe o fundo negro. Sobre eles a túnica do amor, o liame que os faz um com o objecto amado e revela o sentido da existência, o “ponteiro do relógio que dá significado ao tempo”. Dois corpos que se movem vazias até que encontram o amor (os dançarinos aglutinados) que lhes conduzem ao fluxo da vida (as oscilações do baloiço). Então o arquétipo do amor se manifesta em duas faces distintas:

– Uma face libidinosa e lasciva, um possante sim ao desejo, uma entrega lúbrica à vida; e uma face romântica, arrebatada pelo sonho, que vê na face do objecto amado a transcendência do ser, uma porta aberta à um paraíso que sobrepuja os limites do ser patente.

Duas faces da mesma moeda. Um arlequim risonho que transporta entre os lábios o sabor de um beijo, um rosto tristonho que carrega no peito a supereminência de um olhar. O sonho e o desejo dançam entre si, tal como os dançarinos aglutinados, tão distintos e tão articulados, reflectindo a homogeneidade da diferença, a divergência que se desvanece na complementaridade.

Então, como no próprio amor, a hilaridade do arlequim, com a sua lábia lasciva, as suas investidas pelo crioulo e suas incisas (“basa basa / vai pra casa casa / que isto aqui não é um filme boi”) convive com a melancolia, a tristeza e o abatimento do pierrot, o dedo na ferida aberta do amor.

Na plateia o espectador é precipitado nessa torrente extasiante, entre o desejo e o sonho, o riso e o pranto. Na sua mão segura um rebuçado que aperta entre os dedos, dividido entre o desejo lascivo de trinca-lo e a espera sonhadora de um momento.

O auge da peça anuncia o derradeiro desfecho. É o caos: as vozes divergentes na sentença e no tom, corpos que se movem quebrando os limites entre a plateia e o espaço cénico, a movimentação acentuada dos dançarinos aglutinados, a musica harmónica que fluí, o estupefacção dos espectadores… o caos que reflecte a energia poderosa que é o amor. Porque o amor também se escreve assim: o olhar de um pierrot e o beijo de um arlequim.

 

Caplan Neves

Uma nova aventura

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Este é um espaço para a publicação de alguns textos sobre teatro, escritos e discutidos, no âmbito do Curso de Iniciação Teatral, promovido conjuntamente, pelo Centro Cultural Português e pelo Centro Cultural do Mindelo.

Esperemos que possa ser também um lugar para o debate aberto, descomplexado e sobretudo, de aprendizagem.