Eis três condições essenciais para a emergência da arte:
- Espontaneidade – a arte deve inevitavelmente evoluir de dentro para fora (assumindo metaforicamente que exista tal distinção). Não se pode impor divindade aos gestos. Por mais estudada e apurada for a técnica, a beleza surge da naturalidade do gesto. O aperfeiçoamento da técnica é necessária, mas a arte emerge quando a técnica incorpora-se e é esquecida. Surge assim a espontaneidade e a beleza. O estilo de representação de César Lélis é a própria encarnação da espontaneidade. Dispensa toda espécie de artificialidade e sofisticação, limita-se a ser ele próprio e… resulta.
- Criatividade – a originalidade inventiva relaciona-se directamente com a espontaneidade, o afrouxamento daquilo que venha a ser a “realidade factual” e a abertura a expressão interior. A criatividade não surge de um esforço deliberado no sentido da originalidade da mensagem mas da expressão daquilo que naturalmente surge no seio e para além daquilo que percebemos e sentimos, sem concessões relativamente ao consensual. A originalidade inventiva de César Lélis não surge da necessidade de inovar, pelo contrário, o essencial não varia. Mas resulta sempre novo, porque ela é a própria expressão natural de se ser fluxo.
- Comunicabilidade – a distinção entre aquilo que convencionalmente denominamos arte e aquilo que vem a ser loucura ou devaneio, não reside fundamentalmente na natureza daquilo que se exprime, mas na própria expressibilidade do que se exprime. César Lélis comunica profundamente, toca o âmago da nossa hilaridade, fá-lo naturalmente. É necessário distinguir o que venha a ser “populista” (compreendida aqui no sentido depreciativo) do que é a comunicabilidade. A comunicabilidade, contrariamente ao “populista”, relaciona-se ao contacto íntimo do artista com o público. César Lélis é o actor cabo-verdiano mais popular em Cabo Verde, não pela tendência ao populismo, mas porque consegue como poucos um tal contacto com o seu público.
Parabéns César Lélis pela espontaneidade, pela criatividade e pela comunicabilidade. É o primeiro actor a receber o prémio de mérito teatral do Mindelact e merece-o, não apenas pelos trinta anos de carreira, não apenas por ser a alma dos Juventude em Marcha, não apenas pela popularidade, mas fundamentalmente pelo artista que é, e esperemos, continue a ser por muitos anos.
Caplan Neves
